quarta-feira, 14 de novembro de 2018

EBE07



3. ORIGEM DO ESPIRITISMO


PROGRAMA DA AULA
              Nessa aula, nós trataremos da origem do Espiritismo, fazendo também um apanhado histórico dos fenômenos espiritualistas antecedentes à nossa doutrina.
              Assim, vamos compreender melhor como o Espiritismo faz parte da evolução espiritual da Humanidade.

OS FENÔMENOS AO LONGO DA HISTÓRIA
              Como já vimos, em todas as épocas da História da Humanidade, em pontos diversos espalhados pelo planeta, há registros de fenômenos espirituais das mais variadas formas. Cada Civilização tinha em seu meio pessoas das artes místicas, chamados de variados títulos: oráculos, profetas, feiticeiros, bruxos, xamãs, magos, adivinhos, pitonisas, e assim por diante. Geralmente eles viviam em separado da sociedade comum, pois eram tratados como "seres especiais".
              Evidentemente, muito do que se diz desses casos não passa de embuste ou misticismo. As narrativas fantásticas mostram logo que há flagrantes exageros e bastante sensacionalismo acerca do tema. As mitologias clássicas (especialmente as egípcia, grega e romana) contam coisas absurdas acerca de divindades e determinados episódios, coisas que o discernimento comum de hoje rejeita de pronto. Mas a criação dessas fábulas — muito exageradas, é verdade — seria produto apenas da criatividade de seus autores? Ou eles estariam "imitando" certas circunstâncias que naqueles tempos não eram compreendidos e não se sabia explicar? Será que tudo nesses relatos é realmente falso? Será que não existe mesmo nada além do que as ciências convencionais dizem?
              Histórias de fantasmas, casas mal-assombradas, possessões e fenômenos físicos são relatados desde os primórdios da Terra, contados pela tradição oral, de geração em geração, e registrados de maneiras distintas, por exemplo, em esculturas, pinturas rupestres e escritos antigos.
              Os mais antigos escritos conhecidos pelo homem são os Vedas — os livros sagrados do Hinduísmo — cuja estimativa é de que remontem ao ano 1500 a.C. Muitos de seus versos (os mantras) dizem respeito a práticas místicas, por exemplo, evocação aos mortos e manifestação de almas, bem como também estão claramente gravadas na cultura do Antigo Egito.
              A História Antiga é farta de personagens que testemunham fatos sobrenaturais. Na Grécia, por exemplo, o filósofo Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) dizia viver sob a companhia e diálogo constante com um Espírito, a quem chamou Daemon (que quer dizer gênio, mentor, guia espiritual).
              Outro exemplo fabuloso é o da Bíblia, um compêndio riquíssimo em relatos extraordinários. No Antigo Testamento, Jeová — a Divindade de Israel — se manifesta diversas vezes aos hebreus, e em seu nome, vários profetas operam milagres e fazem previsões incríveis. No Novo Testamento, temos a figura central de Jesus Cristo a realizar façanhas inimagináveis para um homem comum.
              As Escrituras também narram que os apóstolos igualmente operaram muitos fenômenos especiais, principalmente curas, seguindo o exemplo do Mestre Jesus.
              Na Idade Média, encontramos a figura de Joana d'Arc, uma camponesa analfabeta que, guiada por vozes espirituais, conduziu o falido exército francês a uma improvável vitória contra os poderosíssimos invasores ingleses no famoso conflito conhecido como Guerra dos Cem Anos.
              Também intrigantes são as centúrias do profeta francês Nostradamus (1503-1566), com previsões fantásticas sobre eventos que iriam se realizar somente alguns séculos depois.
              Nos tempos mais recentes, temos notícias de várias manifestações de santidades católicas, sendo as mais conhecidas as supostas aparições de Maria, mãe de Jesus.
              Outro registro igualmente espetacular é o do espiritualista sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772), que teria visitado o plano espiritual e regressado para revelar aos homens as verdades celestes.
              Na Atualidade, os casos mais extraordinários que evidenciam a natureza espiritual são:
Os fenômenos de terapia de regressão de memória, em que o paciente é hipnotizado e induzido a lembranças de vidas passadas;
Reminiscências reencarnatórias espontâneas, especialmente em crianças;
As chamadas Experiências de Quase-Morte (EQM), outra saliente evidência da atividade espiritual sem os órgãos sensoriais do corpo físico;
Fenômenos de TransComunicação Instrumental, em que se registra manifestações espirituais através de aparelhos de áudio e vídeo, como rádios, televisores e computadores;
Transe anímico, em que o indivíduo entra em estado alterado de consciência e tem percepções do plano espiritual.
E as manifestações mediúnicas, pelas quais os Espíritos agem sobre os médiuns e produzem variados efeitos físicos e transmitem mensagens espirituais.

INTERPRETAÇÕES
              Na Antiguidade, esses fenômenos foram encarados de variadas formas, muitas da quais serviram de base para a geração de mitologias, folclores, seitas e religiões ao redor do mundo. Assim, de Buda nasceu o Budismo, de Moisés nasceu o Judaísmo, de Maomé nasceu o Islamismo, etc.
              Cada cultura e cada religião tenta explicar o fenômeno sobrenatural ao seu jeito: o que é, como se dá, por que se dá e as suas consequências. A interpretação de cada povo está quase sempre ligada às teses da sua religião. Desta forma, um católico acha perfeitamente normal que a Virgem Maria apareça e deixe uma mensagem a quem quer que seja, sem precisar entender o processo da aparição — que, neste caso, normalmente é encarado como um ato milagroso e misteriosamente divino.
              Nas culturas mais conservadoras, como no caso do Islã, a repressão é tão forte que praticamente não permite registros seguros de ocorrências dessa natureza.
              Aqui no Ocidente, durante muito tempo, as religiões conseguiram submeter o conhecimento humano à sua tutela. Todas as descobertas científicas e práticas religiosas deveriam estar em acordo com seus dogmas. Como as religiões costumavam ter influência sobre o Estado, quem fosse contrário à Igreja poderia virar réu do tribunal da Inquisição. Os contraventores — chamados de hereges — eram duramente punidos, muitos deles foram queimados vivos, em praça pública.
              De fato, não se pôde avançar nos estudos dos fenômenos durante a Idade Média, pois tais práticas eram associadas ao satanismo. Quem fosse pego com tais práticas era acusado de bruxaria, portanto, herege. Muitos arderam na fogueira até a morte, como foi o caso de Santa Joana d'Arc.
              Aos que não davam créditos aos conceitos impostos pela Igreja e à incongruência dos dogmas religiosos, sobrou negar tudo. Os incrédulos ridicularizaram os fenômenos, negaram os seus efeitos e por longo tempo abdicaram de pesquisá-los seriamente.
              Além das perseguições religiosas, as pessoas que tinham experiências mediúnicas eram ridicularizadas e, não raro, consideradas dementes e internadas em hospícios, ou eram processadas civilmente por embuste, charlatanismo ou satanismo.

A FENOMENOLOGIA DO SÉCULO XIX
              Com o esmorecimento do poder da Igreja e o avanço da intelectualidade humana, todas as áreas de pesquisas científicas progrediram, assim como se ampliaram os meios de comunicação e informação. Por que havia tantas evidências históricas a respeito daqueles fenômenos, hora surgiria quem se dedicasse seriamente a estudá-los, ainda mais quando eles se multiplicaram sistematicamente em meados do século XIX.
              Um caso de grande repercussão mundial foi o da família Fox, em Hydesville, nos Estados Unidos. Sua casa era diariamente ataca por estranhas batidas no solo, paredes e teto. Surpreendentemente, uma das meninas da família interrogou o visitante invisível e este lhe respondeu com pancadas, iniciando assim um processo de diálogo revolucionário.
              Criou-se então um código para estabelecer uma comunicação com essa entidade, que respondia às perguntas com um determinado número de batidas. Com uma batida, o Espírito respondia às perguntas com um "não" e com duas pancadas respondia afirmativamente. Através de uma série progressiva de perguntas, pode-se descobrir que era aquele "batedor invisível". O resultado desse diálogo foi que o invasor disse ser o Espírito de um mercador assaltado e assassinado naquela residência por antigos moradores. Tempos depois, foi noticiado que o crime havia sido desvendado e que a ossada do mascate tinha sido encontrada escondida numa parede falsa na adega daquela casa — confirmando as revelações através das batidas.
              O ocorrido com a Família Fox serviu de exemplo para despertar o interesse geral em evocar parentes falecidos e outros Espíritos a fim de se fazer investigações sobre o mundo espiritual. E muitos Espíritos responderam! Daí, na América e na Europa, surgiu uma onda de sessões para a evocação dos mortos, que ficou conhecida como o fenômeno das Mesas Girantes. Nessas sessões, as pessoas se davam as mãos ao redor de uma mesa e evocavam os Espíritos familiares a fim de lançarem perguntas diversas. Segundo os relatos, viam-se as mesas girar, levitar e saltar, batendo os pés no chão em resposta às questões formuladas. A partir disso, vários outros sistemas foram criados para interpretar as mensagens espirituais, dentre os quais, a famosa "brincadeira do copo".
              Diversas outras modalidades de manifestações espirituais têm sido documentadas, por exemplo: materialização de corpos espirituais, movimentação de objetos físicos e fenômenos de ação direta de seres do além sobre os médiuns, que enxergam e escutam Espíritos, e que escrevem e falam por influência dos chamados "mortos".

CONSEQUÊNCIAS DAS MESAS GIRANTES
              Em geral, as sessões das mesas girantes eram transformadas em um espetáculo social, muitas vezes com exploração financeira. As perguntas lançadas aos Espíritos quase sempre eram sobre assuntos banais, por mera curiosidade ou interesses materiais, como a leitura da sorte e sobre o futuro.
              Acrescente-se a isso os inúmeros embustes e show de ilusionismos de charlatões que foram desmascarados. Essa banalidade com que a fenomenologia foi tratada acabou desqualificando a mediunidade e afastando muitas pessoas sérias de qualquer contato com a espiritualidade.
              Entretanto, aqueles eventos também serviram para despertar o interesse de algumas academias de ciências e de cientistas renomados, dentre os quais, os físicos Sir William Crookes, Sir Oliver Lodge e Michael Faraday; os astrônomos Friedrich Zöllner e Camille Flammarion; o médico fisiologista Charles Richet, o criminologista italiano Cesare Lombroso e seu conterrâneo e filósofo Ernesto Bozzano; o naturalista Alfred Russel Wallace; e o diplomata e filósofo russo Alexandre Aksakof.
              Incontáveis teses e documentos foram publicados em análise daquela nova onda de manifestações espirituais, com destaque para o livro A História do Espiritualismo do escritor britânico Arthur Conan Doyle (1859-1930) — o célebre criador do personagem Sherlock Holmes. Nesse livro, ele faz uma rica descrição histórica da fenomenologia espiritualista moderna.

A CODIFICAÇÃO DO ESPIRITISMO
              O fenômeno mediúnico estava bem difundido, evidenciando a sobrevivência da alma pós-morte e a existência do mundo espiritual. Mas os ensinamentos colhidos em toda essa fenomenologia e as interpretações que daí se extraíam eram das mais variadas qualidades, muito particulares, de acordo com os interesses de cada grupo que praticava aquelas sessões mediúnicas, sem um entendimento comum e sem uma aplicação prática efetiva.
              Mas é claro que tudo aquilo fazia parte de um planejamento da espiritualidade superior: num primeiro momento, aquelas manifestações serviam para chamar a atenção das pessoas para as questões espirituais e preparar o caminho para o advento da Revelação Espírita, para trazer os novos ensinamentos do Consolador prometido por Jesus.
               E foi para o cumprimento desse plano que Allan Kardec codificou o Espiritismo no que nós chamamos de Doutrina Espírita. Para codificar o Espiritismo, Kardec valeu-se da cooperação de vários médiuns e pesquisadores dos fenômenos psíquicos, mas, principalmente, ele foi assessorado por uma equipe de Espíritos superiores, sob o comando do Espírito de Verdade, que representa o próprio Cristo.
              Allan Kardec era um respeitado pedagogo francês, profundo conhecedor das ciências e espírito filósofo inclinado aos valores morais. Na sua maioridade intelectual, ele participou pela primeira vez de uma sessão mediúnica com a curiosidade de um cientista; comprovando a autenticidade dos fenômenos espirituais, ele deliberou estudá-los sistematicamente, a partir de duas deduções lógicas consequentes:
1) Aquelas manifestações — não importava o que dissessem — provavam a sobrevivência da alma após a morte do corpo físico;
2) Aquele canal mediúnico nos possibilitava conhecer os mistérios do além-túmulo, a natureza do plano espiritual e as suas relações com a nossa dimensão terrena.

              Três anos mais tarde, o pesquisador levava a público a compilação de suas primeiras descobertas através da obra O Livro dos Espíritos, publicado em Paris, em 18 de abril de 1857, que, por assim dizer, é o marco da fundação da Doutrina Espírita.
              Allan Kardec e de seus colaboradores então fundaram um centro de estudos para o desenvolvimento dos seus trabalhos: em 1 de abril de 1858 nascia a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. A exemplo desta, outros centros de pesquisas espíritas foram instauradas em todas as partes do mundo, inclusive aqui no Brasil.
              O intercâmbio entre esses centros favoreceu a continuação das pesquisas de Allan Kardec, que em seguida publicaria outros livros valiosíssimos para fundamentar o Espiritismo, além de um jornal mensal — Revista Espírita — com notícias, experimentações e atualizações dos trabalhos da Sociedade Espírita de Paris.
              Mas, será que as revelações espíritas foram entregues em boas mãos?
              Na aula seguinte, vamos conhecer melhor o codificador do Espiritismo — Allan Kardec — e o seu trabalho de sistematização da doutrina.


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As provas históricas:
O caso de Hydesville, com as irmãs Fox;
As mesas girantes;
Moderno Espiritualismo;
As pesquisas científicas, especialmente de William Crookes, Charles Richet, Cesare Lombroso e Alexandre Aksakof.