quarta-feira, 14 de novembro de 2018

EBE06

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2. CARACTERÍSTICAS DA DOUTRINA ESPÍRITA


PROGRAMA DA AULA
              Na lição passada, definimos Espiritismo como a Doutrina dos Espíritos, pois, afinal, ela se baseia nas revelações espirituais. Porém, sobram indagações sobre se o Espiritismo é ou não uma ciência, se é uma filosofia e, finalmente, se ele é de fato uma religião.
              Nessa aula, trataremos dessas questões enquanto abordamos os três aspectos que caracterizam o Espiritismo: o aspecto científico, o filosófico e o religioso.

CARÁTER CIENTÍFICO
              A primeira fase das pesquisas espíritas de Allan Kardec foi para buscar provas, ou, melhor dizendo, para buscar evidências científicas sobre a realidade dos chamados "fenômenos sobrenaturais". Noutras palavras, se aquelas manifestações — tão badaladas em seu tempo — eram ou não autênticas. E se sim, "por que" e "como" ocorriam esses fenômenos.
              Em meio àquela febre de sessões espiritualistas naquele século XIX, havia, claro, muito misticismo, fraude e charlatanismo, a pretexto de comunicações sobrenaturais. Entretanto, fora esses casos irregulares, diversos fenômenos extraordinários se produziam e evidenciavam uma face da natureza espiritual até então desconhecida do meio comum. Eram fenômenos autênticos, mas que precisavam ser compreendidos e explicados para serem aceitos.
              Para verificar e comprovar tais fenômenos, era preciso então aplicar os mais rigorosos métodos de pesquisa. Em suma, era preciso aplicar a metodologia científica. Por isso, dizemos que o Espiritismo nasceu como uma ciência. E foi assim que Allan Kardec procedeu.

              “Apliquei a essa nova ciência o método experimental, como havia feito até então; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências; procurava remontar às causas dos efeitos, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo uma explicação por válida, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão."
Allan Kardec (Obras Póstumas – 2ª parte – ‘A minha primeira iniciação ao Espiritismo’)

              Observando a veracidade de certos fenômenos, separando-os das fraudes e mistificações, Kardec propôs-se a encontrar a causa desses eventos, ou seja, que força era aquela capaz de produzir tais eventos.
              Foi aí que se chegou até a evidência da existência dos Espíritos. Aqueles fenômenos eram provocados por seres inteligentes, por desencarnados, pessoas como nós, mas que agora estão no plano espiritual.
              Essa descoberta abriu um novo campo de estudo para a Humanidade.

              “Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a solução que eu procurara em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma revolução nas ideias e nas crenças; portanto, fazia-se necessário andar com a maior discrição e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir”.
Allan Kardec (idem)

              No que diz respeito ao caráter científico, o Espiritismo continua estudando e pesquisando os fenômenos espirituais, os incontáveis mecanismos mediúnicos e seus efeitos, acompanhando os critérios da ciência, ou seja, analisando os fatos pela lógica racional.
              Com isso, a Doutrina Espírita não admite como seus princípios as teorias puramente baseadas em ideias místicas ou dogmas sagrados, enquanto elas não forem evidenciadas pelo crivo da razão e pela experiência prática.

CARÁTER FILOSÓFICO
              Se a causa daqueles fenômenos fosse puramente uma força física — por exemplo, por ação do vento, uma reação calórica ou qualquer energia material — o Espiritismo então ficaria limitado ao ramo científico tradicional, como a Química, a Física,, a Geografia etc. Mas acontece que a causa daquelas manifestações era uma força inteligente, movida por uma vontade, uma ação consciente: nesse caso, Espíritos.
              Além disso, mais do que provocar efeitos físicos, os Espíritos também transmitiam mensagens inteligentes, dentre as quais, conceitos de ordem moral. Desta maneira, esses ensinamentos assumem um caráter filosófico, tanto que Kardec redefiniu o conceito da nova doutrina que nascia:
              “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que vêm dessas mesmas relações”.
(O que é o Espiritismo, Allan Kardec – Preâmbulo)

              Portanto, além de procurar compreender o mecanismo de interação entre o mundo espiritual e a nossa dimensão terrena — que caracteriza a parte científica da doutrina —, o Espiritismo passou a se ocupar igualmente com a relevância dos ensinamentos dos Espíritos — adentrando no terreno da Filosofia.
              Assim como a Filosofia tradicional analisa a essência da Humanidade e o valor ético-moral das suas relações sociais, a Doutrina Espírita igualmente o faz, mas acrescentando a natureza espiritual e a solidariedade do intercâmbio entre encarnados e desencarnados.
              Aliás, a beleza mais resplandecente do Espiritismo está na sua filosofia moral, na qual os atributos da Divindade, o Evangelho de Jesus e as virtudes eternas se reúnem na mais perfeita lógica, como nenhuma outra doutrina pôde oferecer à Terra. Falaremos disso mais adiante.

CARÁTER RELIGIOSO
              Os Espíritos colaboradores da fundação do Espiritismo deram testemunho de Deus, o Criador de tudo e de todos e o Soberano do Universo, e também testemunharam a supremacia das virtudes espirituais — especialmente a lei de amor e de caridade.
              E mais: eles atestaram a validade da oração, como canal íntimo de ligação de cada indivíduo com a Divindade e com todas as potências da espiritualidade.
              Em consequência disso, a Doutrina Espírita assumiu também o caráter religioso, uma vez que em seu código filosófico e moral estão contidos certos efeitos religiosos. Veja o que Kardec disse sobre isso:

              "O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo sacerdote."
Allan Kardec: Obras póstumas – Ligeira resposta aos detratores do espiritismo.

              A religiosidade do espírita consciente é a mais simples, pura e objetiva — seguindo o exemplo do Cristo Jesus. Ela é a conexão mais direta entre cada indivíduo para com Deus e com toda a fraternidade universal.

DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO
              Foi como um cientista que Allan Kardec deu partida aos seus estudos e tinha a pretensão de fazer do Espiritismo uma ciência regular, como qualquer outra. Contudo, isso não poderia ser concretizado, de forma que não é exato chamar a Doutrina Espírita de ciência, para começar, por duas razões básicas:

1) As ciências regulares têm um caráter oficial, inclusive profissional, e obedecem a uma hierarquia constituída por determinados órgãos e reconhecida pelas autoridades dos Estados. A Medicina, por exemplo, é uma ciência regular, constituída e oficializada pelas academias e regulamentada pelos órgãos públicos dos governos, de modo que, para ser médico, o interessado precisa se submeter a todos esses controles. Logo, o Espiritismo não poderia estar sujeito ao controle terreno, de quem quer que fosse;
2) Além disso, as ciências regulares ainda se restringem essencialmente ao elemento material, enquanto que o objeto de estudo espírita vai além da fronteira física, em direção à natureza espiritual.

              Mesmo não sendo uma ciência constituída, o Espiritismo continua desenvolvendo suas pesquisas seguindo os procedimentos científicos e, com tal aspecto, tem o caráter progressista, explorando a natureza espiritual e ratificando o que for evidenciado.
              Por assim dizer, o Espiritismo é um novo modelo de ciência, porque vai além das ciências tradicionais. Desta maneira, a melhor classificação para o Espiritismo é como uma doutrina, ou seja, um sistema de estudo, pesquisa e aplicação de seus conceitos acerca do seu objeto de estudo — no nosso caso, a espiritualidade.

A QUESTÃO RELIGIOSA
              Semelhante a essa questão científica, uma velha pergunta se apresenta: afinal de contas: o Espiritismo é ou não é uma religião?
              Bem, no tempo de Allan Kardec — e ainda hoje, para muitas pessoas — a religião tem sempre um caráter institucional, formalizado e necessariamente obedece a uma hierarquia, formada pelos seus líderes religiosos consagrados; as crenças convencionais prometem a salvação da alma mediante certos procedimentos e rituais, por exemplo, o batismo. Nessas circunstâncias, o Espiritismo não tem nada de religião, visto que é totalmente desprovido dessas formalidades, assim como dispensa qualquer tipo de ritual, liturgia mística, sacramentos e símbolos religiosos. Nenhum centro espírita, nem qualquer organização e tão pouco ninguém tem a prerrogativa de se declarar representante oficial da Doutrina Espírita: quer dizer, não há hierarquia religiosa, pessoas consagradas pelo Espiritismo que exerçam qualquer domínio de direito sobre os demais.
              Outros, porém, consideram a religião não como uma instituição formalizada, mas — resgatando o seu sentido originário — como uma ligação íntima de cada indivíduo com a divindade e das obrigações pessoais para com a espiritualidade. É assim que diz o Espírito Emmanuel, guia espiritual de Chico Xavier:

              “Religião é o sentimento Divino, cujas exteriorizações são sempre o Amor, nas expressões mais sublimes. Enquanto a Ciência e a Filosofia operam o trabalho  da experimentação e do raciocínio, a Religião edifica e ilumina os sentimentos."
(O Consolador, pelo Espírito Emmanuel, Francisco Cândido Xavier, questão 260)

              Nesse aspecto, o Espiritismo não apenas é uma religião, como também é o canal religioso mais direto e que melhor descreve a natureza espiritual, pois se vale não de dogmas sagrados e nem de práticas e conceitos místicos, mas do sentimento íntimo entre o indivíduo, Deus e toda a espiritualidade, com a observação e experimentação da lógica e da razão, tal como Allan Kardec declarou:

              “Se é assim, perguntarão: então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores! No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.”
(Revista Espírita, dezembro de 1868, Allan Kardec – “Discurso de Abertura pelo Sr. Allan Kardec: o Espiritismo é uma religião?’)
               
              Portanto, assim como se difere das ciências regulares e nos propõe um novo modelo de fazer ciência, o Espiritismo se difere das religiões tradicionais e nos propõe um novo modelo religioso, ou, como preferem alguns, o Espiritismo é o resgate da verdadeira religiosidade, a chamada Religião Natural: sem fanatismo, sem corpo eclesiástico, sem dogmas, sem sacramentos ou qualquer culto exterior.

DE QUEM É O ESPIRITISMO
              Como dentre as leis da natureza há o canal mediúnico, é certo que o intercâmbio entre os Espíritos desencarnados e as almas encarnadas obedece a um plano superior, conforme a vontade divina, objetivando a nossa evolução. O Espiritismo então se fundamenta como uma doutrina de aproximação entre a espiritualidade e a Humanidade terrena.
              Não tem um dono em particular, mas pertence a todos nós, como patrimônio universal. Seus conceitos vão se estabelecem na medida em que as próprias leis naturais vão se manifestando, acompanhando as capacidades intelectuais dos homens, e vão sendo comprovadas de uma maneira generalizada, visto que os fenômenos mediúnicos podem ocorrer em qualquer hora, qualquer lugar e a qualquer pessoa, independentemente de sua crença, condição social, nível intelectual ou qualquer outra característica.
              Mas, você pode estar se perguntando: será que as revelações espirituais são confiáveis?
              Será que a codificação espírita interpretou bem essas revelações?
              Vamos conferir isso na próxima aula. Mas, antes, não se esqueça de participar do nosso fórum.

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Por que as ciências ignoraram o Neoespiritualismo do século XIX?